O que é? Quem inventou e para que serve? Respondemos a estas e outras perguntas sobre uma das palavras do momento. Para que não passe metade da vida distraído.

 

Da meditação à dieta, o “mindfulness” é um treino mental que está a entrar em várias áreas do dia-a-dia.
Vamos lá começar. O que é isso de “mindfulness”?

“Gosto de ver o mindfulness como a capacidade de estar presente”, começa por dizer Vasco Gaspar, autor do livro Aqui e Agora (edição Matéria-Prima). “É o estar consciente do que se passa à nossa volta, das emoções, do nosso corpo”, continua o licenciado em Psicologia do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Coimbra e ainda professor certificado no Search Inside Yourself, programa de mindfulness desenvolvido e testado na Google. A arte em questão — se assim a pudermos chamar — é simples na sua definição, difícil na prática. Afinal, quantas vezes conseguimos efetivamente desligar a nossa corrente de pensamentos e concentrarmo-nos apenas no que está ao nosso redor? É como o hábito recorrente de conduzir em piloto automático, sem dar conta do caminho, ou andar nos transportes públicos sem nunca nos apercebermos das pessoas com quem nos cruzamos. E porque é tão importante fazer o inverso? Porque “toda a nossa vida acontece agora, no presente”.

O mindfulness é, então, um treino mental que ensina as pessoas a lidarem com os seus pensamentos e emoções. Ajuda uma pessoa a distinguir o pensamento útil daquele inútil que, em determinadas circunstâncias, chega a ser prejudicial.

Quem é que se lembrou disto?

“A maioria do que conhecemos atualmente como mindfulness tem a sua origem no budismo”. Embora a técnica seja milenar, a sua introdução recente na sociedade ocidental deve-se em particular a uma pessoa: Jon Kabat-Zinn. Doutorado em Biologia Molecular pelo MIT, foi num retiro que percebeu que a meditação poderia ser usada sem qualquer componente religiosa. Pegando nesse pressuposto, desenvolveu o programa MBSR — Mindfulness Based Stress Reduction (redução de stress baseada em atenção plena) que viria a revolucionar a forma como o mindfulness é visto. “Todos os ramos que ouvimos falar de mindfulness têm este tronco em comum, ainda que depois do programa tenham surgido mais ramificações. Mas foi Jon Kabat-Zinn que começou por ligar a ciência ao mindfulness.

E como é que se pratica “mindfulness”? É preciso cruzar as pernas e dizer “ohmmm”?

O mindfulness pode ser praticado de duas formas, formal ou informalmente. A primeira diz respeito à meditação, ainda que não seja preciso cruzar as pernas ou pôr as mãos ao nível do peito. Na verdade, não tem que ver necessariamente com o estar focado, basta fazer o esforço da atenção plena, deixando os pensamentos fluir durante alguns minutos e em silêncio.

Quais os seus benefícios?

Antes de mais, o mindfulness não pode ser tido como uma panaceia, isto é, um pretenso remédio universal para todos os males do mundo. No entanto, a sua prática não impede de se obter maior clareza e capacidade de lidar com as diferentes adversidades que vão surgindo ao longo da vida.

Onde é que o “mindfulness” já chegou?

Se é verdade que o mindfulness já pisou o hall de entrada da ciência — com as áreas das neurociências ou da epigenética a servirem de exemplos –, o mesmo se pode dizer tendo em conta muitos outros setores da vida em sociedade, tal como esclarece Vasco Gaspar na obra já referida:

  • na saúde, no sentido em que o mindfulness está a ser usado com sucesso no tratamento de patologias de foro mental e físico. Exemplo disso é o facto de ser recomendado no Serviço Nacional de Saúde britânico;
  • nas empresas, com a Google a ser uma espécie de porta-estandarte ao criar o curso Search Inside Yourself;
  • na liderança, com o falecido Steve Jobs da Apple ou Arianna Huffington, presidente e editora chefe do Huffington Post, a admitirem que praticam a meditação mindfulness;
  • na política — quem diria que é oferecido mindfulness aos colaboradores do parlamento inglês?;
  • nas forças militares e de segurança (tanto o US Navy como o US Army já se vergaram à meditação plena);
  • e ainda na educação.
“Mindfulness” na educação? Como assim?

Educar com mindfulness não quer necessariamente dizer que deixam de existir conflitos entre pais e filhos, no entanto há a promessa de entender mais facilmente que cada conflito tem o seu papel e quais as aprendizagens a ele associadas. “O mindfulness é, no fundo, uma forma de como nos relacionamos com a vida. É a observação propositada do momento presente sem julgamentos e com compaixão”, diz Mikaela Övén, instrutora de mindfulness certificada desde 2012 e autora do livro Educar com Mindfulness (Porto Editora).

Também se fala na dieta “mindfulness”. É preciso meditar enquanto se come?

Em causa não está tanto a promoção de dietas com o rótulo mindfulness, antes um estilo de vida mais saudável. Segundo o livro Alimentação Plena, de Patrizia Collard e Helen Stephenson (edições Matéria-Prima), a ideia passa por mudar a relação que temos com a alimentação, quando esta é negativa. Para tal é preciso estar-se consciente do que se come e apreciar todos os momentos de uma refeição. A título de exemplo, no livro lê-se que são muito poucas as pessoas que comem apenas quando têm fome no mundo ocidental, isto porque as emoções desempenham um papel determinante nos nossos hábitos alimentares. “O mindfulness ajuda a termos consciência do que comemos, quando comemos e a identificar padrões de consumo excessivo.” Comer de forma mindful implica, então, prestar atenção ao corpo, isto é, refletir sobre as necessidades físicas antes de levar comida à boca; usar pratos mais pequenos e porções menores; comer pouco e várias vezes ou beber um copo de água antes de cada refeição.

Será que vamos cuidar da mente como cuidamos do corpo?

Fonte:Obs/

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