A ideia de que o mundo rural pertence aos ignorantes e que a vida na cidade é sinónimo de evolução e de conhecimento, que desde cedo nos foi incutida pela grande maioria das pessoas que participaram na nossa educação, foi a grande responsável pelo estado de abandono a que o interior do nosso país chegou.

Com este abandono corremos o risco de perder os antigos e preciosos saberes transmitidos entre gerações, que sustentaram a vida no campo durante milhares de anos. Uma vez perdidos, não serão recuperados!
“Na serra as terras sempre foram pobres, de vertentes xistosas apenas favoráveis ao pastoreio.Alguma terra de cultivo aperta-se no fundo dos vales. Na maior parte das vezes estas pequenas cercas de boa terra não se formaram naturalmente. A terra boa que está hoje no fundo dos vales, foi para lá transportada pelo homem! Pode ter sido há milhares de anos, mas a dorso de mula, ou às costas do agricultor, a terra veio de outro local e depositada no leito do barranco, entretanto desviado. Em tempos de chuva, as águas da enxurrada, desviadas para junto da encosta e sustidas por um muro de suporte, permitem que a parte central e o antigo leito do barranco sejam ocupados pela terra húmida e fértil onde crescem as hortas e árvores de fruto. Estas hortas da serra, estes pequenos jardins de terra preciosa, foram todos construídos pelo homem ao longo de milhares de anos e sempre foram protegidos, ora com muros ora com sebes e valados. É lá, nestas terras fundas, ricas em matéria orgânica e bem trabalhadas que se criam os melhores legumes, as melhores figueiras e romanzeiras.

Num futuro próximo, esta agricultura de elevada qualidade vai ter cada vez mais importância pois, ao contrário do que se possa pensar, o homem não sobrevive comendo plástico e ainda não perdeu a memória dos bons sabores. E como a comida, a boa comida vem apenas da terra, em breve seremos obrigados a defender, num gesto vital, os espaços agrícolas que nos restam ou que estão em perigo de ser destruídos com a expansão urbana.

É hoje nossa obrigação proteger a agricultura tradicional, as nossas hortas e pomares, os nossos saberes. São um património colectivo construído pelos nossos antepassados ao longo de milhares de anos, um bem fundamental para a sobrevivência da nossa própria civilização. Todo esse saber da terra, não o podemos agora desperdiçar. Devemos guardá-lo e aprender a transmiti-lo, pois num futuro mais próximo do que imaginamos, vai ser necessário para a sobrevivência dos nossos filhos.

E as formas e vontades de retomar um certo tipo de cultivo da terra não está perdido. E vocês ainda têm esta riqueza! Esta serra algarvia, no meio da sua aridez, esconde nas pregas dos vales as suas hortinhas e pomares os seus pequenos jardins do paraíso. É lá também que se guardam ciosamente
os velhos saberes e tradições, as memórias de uma cultura de camponeses e pastores que, orgulhosamente souberam resistir à aculturação e aos apelos da cidade.”

A nós, enquanto descendentes destes homens que o texto acima refere, que carregaram a terra às costas e que a trabalharam durante anos, toca-nos particularmente este tema.

É contra este abandono que nos debateremos e que daremos o nosso pequeno contributo.