É um dos segredos do sucesso crescente que os vinhos portugueses estão a ter no mercado interno (incluindo turistas) e na vertente externa (de que esses mesmos turistas passaram a ser um grande promotor).

Apesar de ter um território exíguo, Portugal beneficia do facto de alardear uma grande variedade de castas. Segundo os últimos cálculos, são cerca de 250 indígenas, o que dá praticamente uma casta para cada dia últil do ano. Ao fim-de-semana, os amantes do vinho podem satisfazer-se com as excelentes produções que cá se fazem a partir de inúmeras castas estrangeiras.

E o caminho não está todo percorrido, porque por esse país fora há muitas vinhas velhas cujas origens genéticas ainda não foram definidas.

É essa inestimável variedade, aliada às diferenciações de climas e de solos, parte essencial do famoso ‘terroir’, que tem instilado um crescendo de qualidade e nos permite ser reconhecidos entre os críticos e especialistas do setor à escala global como um país produtor de ‘vinhos diferentes’ com qualidade superior.

“A grande variedade de castas (…) permite produzir uma diversidade de vinhos, marcados por características únicas, o que potencia a sua competitividade em nichos de mercado, apreciadores de vinhos de excelência”, destaca um estudo da Aicep, concluído em maio passado e intitulado ‘Vinhos de Portugal – Reconhecimento Crescente no Mercado Internacional’.

Luís Castro Henriques, presidente do conselho de administração da Aicep, assinala nesse documento que “a diversidade de castas autóctones tem permitido produzir vinhos únicos e distintos e hoje os vinhos portugueses rivalizam com os melhores do mundo em termos de qualidade”.

Mas os vinhos, como qualquer outro setor empresarial, também passam de forma inexorável pela fasquia da quantidade e da produtividade.

De acordo com as estatísticas da OIV – Organização Internacional da Vinha e do Vinho, e recorrendo a alguns dados do IVV – Instituto da Vinha e do Vinho, a Aicep chegou à conclusão que “2017 foi um ano de produção historicamente baixa na Europa Ocidental fruto das condições climatéricas adversas”.

“Estima-se que a produção mundial de vinho, em 2017, tenha sido de 246,7 milhões de hectolitros [cada hectolitro equivale a 100 litros], menos 8,2% do que na campanha de 2016, sendo que esta última fora já inferior em cerca de 5% face a 2015”, avança Iara Martins, especialista da fileira agroalimentar e de bebidas da instituição, no referido estudo da Aicep.

A mesma especialista da Aicep adianta que “no Velho Mundo, países como a França (36,7 milhões de hectolitros), Itália (33,5), e Espanha (33,5), apresentam valores muito baixos, enquanto a Alemanha (8,1) registou uma ligeira queda”.

“Portugal, com uma produção de 6,6 milhões de hectolitros, Roménia (5,3), Hungria (2,9) e Áustria (2,4) foram os únicos países a conhecerem um aumento face a 2016”, esclarece Iara Martins.

Nos países do Novo Mundo também se registaram comportamentos diversos: “enquanto a Austrália, com 13,9 milhões de hectolitros, a Argentina (11,8) e o Brasil (3,4) apresentam ligeiros acréscimos [de produção], os Estados Unidos da América (23,3) e a África do Sul (10,8) deram sinais de estabilidade, e o Chile (9,5) e a Nova Zelândia (2,9) registaram ligeiras quebras”.

“Em resumo, Itália, França, Espanha e EUA são os quatro países que produziram cerca de metade de todo o vinho do mundo no ano passado. Portugal, apesar de ter explorações de pequena dimensão e uma área de vinha pequena por comparação a outros países, é o 11º produtor mundial de vinho, detendo 2% da produção mundial”, assinala o estudo da Aicep.

E Iara Martins destaca que “(…) Portugal é o terceiro país a nível mundial com maior variedade de castas (250), possuindo 31 Denominações de Origem Protegida (DOP) e 14 de Indicação Geográfica (IG), que representam 89% da produção e que são encaradas como uma potencialidade”.

“A nossa grande diversidade de castas assegura-nos não só um património inquestionavelmente rico, como uma diversidade que mais nenhum outro país possui”, garante a especialista da Aicep.

Portugal é o 8º maior exportador mundial de vinhos

O estudo da instituição liderada por Luís Castro Henriques observa ainda que “Portugal é também o oitavo melhor exportador mundial de vinho, num ‘ranking’ liderado pela França, detendo 1% das exportações mundiais de vinho, com 747 milhões de dólares faturados [778,7 milhões de euros], a um preço médio de 3,51 dólares”.

“O país sobe, assim, para sétimo no ‘ranking’ do preço médio por garrafa, mas o vinho português continua, em muitos dos casos, a estar posicionado num segmento com preço baixo e sem espaço de prateleira”, alerta o estudo da Aicep.

Este documento revela que, em 2017, o mercado nacional representou cerca de 2,48 milhões de hectolitros, o que correspondeu a um volume de negócios de cerca de 746 milhões de euros. “Em comparação com o ano anterior, 2017 apresentou um crescimento de 3,2% em volume e de 5,2% em valor”, frisa este documento, demonstrando que o lento caminho de subida do preço médio por garrafa dos vinhos portugueses, mesmo no mercado interno, continua a fazer-se.

Vinhos tranquilos dominam exportações para 145 países

Na frente externa, “em 2017, as exportações portuguesas de vinho destinaram-se a 145 países, dos quais [a] França foi principal cliente, com uma quota de 14,1% nas nossas exportações totais deste produto, seguindo-se o Reino Unido (10,2%) e os EUA (10,1%)”.

O estudo da Aicep salienta “(…) os aumentos das vendas para Angola (39,9%), Brasil (53%), China (24,1%) e Espanha (15,8%)”.

“Por categorias de produto, constata-se que é fundamentalmente o vinho de mesa (vinho tranquilo) que sustenta o crescimento global do setor, apresentando uma taxa de crescimento (DO-Denominação de Origem + IG – Indicação Geográfica ‘+ Vinho) de 13,1%. Dos 55 milhões de euros de acréscimo das exportações totais, 50 milhões devem-se aos vinhos ditos tranquilos”, nota o estudo da Aicep.

-Área de vinha plantada (em Portugal Continental) em 2016: 190.456 hectares, menos 47.606 hectares do que em 2000. Destacam-se as Beiras, com 25,2% da área; o Douro, com 22,5%; e o Alentejo, com 12,3% (a região onde a área de vinha mais cresceu, com mais 7.252 hectares do que em 2000);

-Regiões com produção mais significativa (2017/2018): Douro, com 21% do total (1,4 milhões de hectolitros); Lisboa, com 19% (1,2 milhões de hectolitros), Minho, com 15% (974 mil hectolitros); e Alentejo, com 14% (957 mil hectolitros);

-Número de empresas (2016): 1.296 (INE). O número de empresas a operar neste setor tem vindo a aumentar de forma sistemática entre 2012 (850 empresas) e 2016 (11,%, em média, por ano);

-Número de empresas exportadoras de vinho (2016): Portugal registou 1.296 empresas exportadoras de vinho neste ano, das quais as cinco principais representaram 36,7% das exportações totais;

-Número de empregados (2016): 9.538. O número de trabalhadores aumentou de forma consistente entre 2012 (8.573 empregados) e 2016 (2,7%, em média, ao ano). Os maiores crescimentos anuais ocorreram em 2013 e em 2014;

-Dimensão das empresas (2016): 82,6% das empresas tinham menos de 10 trabalhadores, 15,4% contavam com 10 a 49 colaboradores; 1,9% tinham entre 50 e 249 e apenas 0,2% empregavam 250 ou mais trabalhadores;

-Faturação global do setor (2016): seis mil milhões de euros. O volume de negócios do setor aumentou em todos os anos do período 2012-2016; subida de faturação de 4%, em média, ao ano;

-VAB – Valor Acrescentado Bruto do setor (2016): 378 milhões de euros. Mais 62 milhões de euros do que em 2012; o VAB cresceu em todos os anos do período 2012-2016, crescimento de 4,7%, em média, ao ano;

-FBCF – Formação Bruta de Capital Fixo (vulgo, investimento, entre 2012 e 2016): O investimento produtivo acumulado entre 2012 e 2016 somou 409 milhões de euros;

– Peso do setor do vinho na economia (2016): O setor do vinho respondia por 1,4% do emprego em Portugal, por 1,9% do número de empresas e do VAB e por 2% do volume de negócios e do investimento produtivo na indústria transformadora;

– Aumento de qualidade dos vinhos (2000/2017): Em 2000/2001, dos 6,7 milhões de hectolitros produzidos, 3,26 milhões de hectolitros foram DOP (48,6%) e 1,342 milhões foram IGP. Na campanha 2016/17, dos 6,7 milhões de hectolitros, 3,586 milhões foram DOP (53,5%) e 1,901 milhões foram IGP (28,4%);

-Previsões para a campanha 2017/2018: Na altura em que foi concluído o estudo da Aicep, os dados provisórios apontavam para uma produção de 6,7 milhões de hectolitros de vinho, um volume muito próximo do verificado em 2000, mas superior em 682 mil hectolitros ao da campanha de 2016/17.

Fonte: Jornal Económico